Educação, corporativismo e gestão
A educação em Portugal parece viver em crise permanente. Muitas são as causas e muitas as receitas propostas. Na minha opinião o problema central da educação é essencialmente um problema de gestão, sobretudo de gestão do seu principal activo: os recursos humanos.
Em qualquer empresa, o factor crítico de sucesso está indexado aos talentos que consegue captar. Reter os melhores funcionários e criar uma atmosfera onde as suas capacidades possam ser aproveitadas ao máximo é o que muitas vezes dita a diferença entre a sobrevivência ou a morte. No ensino o factor humano é ainda mais crítico. Nenhum computador ou livro pode substituir o entusiasmo e a energia de um professor que sabe motivar os seus alunos e de lhes pôr um brilho nos olhos.
As máquinas são importantes mas meramente reactivas. Um bom professor é activo e incita a curiosidade, estimula a dúvida e faz acordar o desejo de saber mais. Pelo contrário um mau professor pode ter o efeito perverso contrário de matar essa curiosidade ou mesmo ditar o abandono escolar, até de alunos brilhantes. Os maus professores são um activo tóxico numa escola e, mesmo em pequeno número, se não forem removidos, acabam por destruir o esforço da equipa.
O princípio de premiar e reter os bons professores e dispensar os maus parece uma verdade insofismável de boa gestão de recursos humanos. Porém ele não se aplica às escolas. Não se aplica ao nível do recrutamento dos melhores, quer sobretudo a nível da dispensa dos piores. Uma vez contratado, um mau docente pode ficar o resto da sua vida a leccionar sem que ninguém o possa impedir.
Eu pergunto, que tipo de qualidade pode uma empresa esperar atingir se, depois de contratar alguém não o puder despedir? Já que não se pode despedir, a contratação acaba por ser o factor crítico que devia obedecer a critérios exigentes e rigorosos. Porém, não é isso que acontece. No caso do ensino secundário a contratação é um mero processo administrativo gerido por uma monstruosa máquina burocrática e a progressão salarial é feita por antiguidade. Ou seja, independentemente do seu esforço, ao olhos da administração para um professor ser bom basta ser velho. No caso do ensino superior o processo é melhor mas também com imensas deficiências, como já referi em artigos anteriores.
Não é de espantar que nas escolas a meritocracia tenha sido substituída pela burocracia. As escolas estão na mão de burocratas que mantêm o ensino aprisionado num denso e ineficiente labirinto de interesses corporativos. Os sindicatos preocupam-se em defender os “interesses dos professores” sem nunca questionar a sua qualidade ou do serviço prestado. Os administradores, directores ou responsáveis sectoriais agem mais como comissários do ex-regime soviético do que gestores de uma empresa moderna.
Não tenho dúvidas que, se as escolas fossem uma empresa, há muito estariam falidas. Mas é claro que não são, nem o devem ser. Mas o facto de não estarem obrigadas a critérios de lucro não significa que não devam ser eficientes na gestão do dinheiro público e na formação das próximas gerações. Para isso acontecer muita coisa tem de ser mudada. A mais simples e eficaz é as escolas terem o poder, e autonomia, de seleccionar os seus professores e, sobretudo, por na rua os maus professores ao mesmo tempo que recompensam os melhores. É lamentável que estejamos a formar talentos de grande qualidade e que, quase sempre, os melhores acabem por partir para o estrangeiro.
Existem milhares de ideias, projectos, tecnologia e pessoas competentes que querem lutar por modernizar a educação e elevar os standards de qualidade dos alunos. Infelizmente, enquanto não mudarmos radicalmente a organização das escolas, dando-lhes mais autonomia para que sejam geridas de uma forma moderna e eficiente, todos os esforços de pouco valerão.

