Estamos a viver tempos extraordinários. Comunicar, criar comunidades, partilhar notícias, pensamentos, ideias nunca foi tão fácil. Fazer revoluções também não. Bem vindos à era 2.0.

O mundo está a mudar a uma velocidade estonteante criando conflitos e rupturas próprias de um período revolucionário. Sinal dessas rupturas é o fosso que existe entre as possibilidades da tecnologia e a realidade da política. No mundo da web, sobretudo na web 2.0, os utilizadores são reis: os seus comentários são cruciais na avaliação de um produto ou serviço, as respostas às suas questões imediatas, as reclamações ouvidas.

Porém, quando nos voltamos para a nossa realidade política, o fosso não podia ser maior: as pessoas não são ouvidas, os representantes eleitos acabam por ser uns desconhecidos, o dinheiro gasto sem prestar contas, decisões importantes apresentadas como factos consumados. A única coisa nos deixam fazer é por uma cruz num papelinho a cada 4 anos, como se fossemos uns atrasados mentais.

Vivemos num mundo largamente diferente da realidade na qual nasceu o modelo político actual. As pessoas não se identificam com os partidos e os seus representantes e  poucos se revêem no modelo político-parlamentar. Mais do que ideologias, o mundo hoje rege-se por um desejo incontido de liberdade, criatividade, individualismo e interactividade. As pessoas procuram espaços de afirmação da sua individualidade, de expressar as suas ideias, a sua força criativa.

A geração actual não vive presa aos meios de comunicação em massa e os seus iluminados “opinion makers”. Vivemos numa sociedade diversificada, fragmentada de micro-sociedades, onde cada pessoa é um mundo, cada consumidor um mercado. Assim como a era da produção de produtos em massa teve o seu fim, também a era da informação em massa está prestes a terminar.

E revolução na política também tem os seus dias contados. As forças mono-bloco representadas por partidos, sindicatos ou federações para organizar manifestações. Este é o tempo do crowdsourcing. Os opinion makers não tem o monopólio. Democracia 2.0

Foi notável ver que uma manifestação sem lideres conseguiu mobilizar mais de 200 000 pessoas. Podemos escrever o que quisermos, mas o mundo mudou. Hoje o poder está directamente nas pessoas e a mensagem não é mais controlada nem filtrada por canais que externos.

Esta não foi uma manifestação da geração, ou gerações, à rasca. Foi um grito de revolta de um país que se sente triste, enganado e deprimido. Este foi um movimento genuíno de pessoas que estão cansadas, desiludidas e sem esperança e que querem fazer ouvir a sua voz a um regime autista. O que estamos a assistir não é só um grito de revolta. São as sementes de uma nova realidade organizativa da sociedade. A Internet, e em particular as redes sociais, a designada web 2.0, está a revolucionar a forma como as pessoas se relacionam e comunicam. Depois de transformar o e-commerce e os negócios, está ela chegou à política. Bem vindos ao mundo da Democracia 2.0. Auto-organizada, apartidária, feita pelas pessoas e não pelos “lideres de opinião”, baseada no crowdsourcing, a democracia 2.0 veio para ficar.

Os governantes que se preparem pois o mundo nunca mais vai ser o mesmo