Há cerca de 3 décadas que a tecnologia entrou na sala de aula. Não têm faltado planos de modernização com produtos e serviços para melhorar a aprendizagem: partilha de conteúdos, e-books, CDs interactivos, ferramentas de formação à distância, quadros interactivos… Porém, até agora, com pouco impacto. Depois de centenas de produtos e empresas terem tentado disromper este sector, a melhor inovação na educação ainda é … o quadro e o giz. A culpa? Um sistema educacional que teimosamente, e paradoxalmente, resiste à inovação. Apesar de todas as revoluções tecnológicas, o ensino é dos sectores que menos mudanças tem sofrido no último século. Mas uma reforma é desesperadamente necessária.
Muitos acreditam que esta reforma só será possível de implementar a partir de directivas superiores coordenadas pelo Ministério da Educação ou similar. Infelizmente, esta abordagem top-down nunca irá funcionar. Porquê? Porque as escolas não querem ser interrompidas nem intervencionadas externamente e porque os incentivos à mudança são mínimos.
Nos últimos 30 anos os gastos por aluno cresceram muito acima da inflação e o número de alunos por professor, bem como o número alunos por computador, diminui. No entanto, os resultados são os mesmos, senão piores. Algo está fundamentalmente errado. Apesar de terem mais dinheiro, mais professores e mais computadores por aluno, nenhum destes factores parece ter tido impacto no desempenho dos alunos.
A educação em Portugal é gerida por uma estrutura burocrática de uma complexidade e ineficiência assustadora. Os administradores, directores ou responsáveis sectoriais agem mais como comissários do ex-regime soviético do que gestores de uma empresa moderna. Eles não querem ser perturbados, pois para eles o essencial é manter o status-quo.
Um director tem muito pouco controle sobre os recursos na sua escola. Tudo, desde professores a livros didácticos, tem de passar pelo escrutínio de uma direcção regional ou do ministério num interminável labirinto burocrático. Qualquer inovação é tratada como um custo e não um meio para aumentar a produtividade e reduzir custos. Ninguém está interessado em inovar realmente, apenas fingir que se está a fazê-lo.
Um outro grande problema é a qualidade dos professores, quer do ensino secundário quer do ensino superior. Num país onde é quase impossível demitir um mau professor, normalmente são os melhores, ou aqueles que lutam por fazer a diferença e inovar, que acabam por sair ou ser marginalizados. Obcecados por “manter a ordem”, os directores esquecem-se que o dano que um mau professor pode produzir na formação de um aluno é enorme, ao ponto de comprometer a sua carreira profissional ou desvirtuar os seus objectivos.
Existem milhares de ideias, projectos, tecnologia e pessoas competentes que querem lutar por modernizar a educação e elevar os standards de qualidade dos alunos. Infelizmente, enquanto não mudarmos radicalmente a organização das escolas, dando-lhes mais autonomia para que sejam geridas de uma forma moderna e eficiente, todos os esforços de pouco valerão.
Acertado em grande parte; conheço muito bem um certo agrupamento de escolas por estar na associação de pais, e há casos levados da breca. O ano passado uma prof. contratada ia para as aulas dormir – literalmente, ficava a sonhar, não abria a boca, passava a aula sem nada dizer. A direcção pura e simplesmente não tem poderes para a demitir, nem sequer para a mandar para casa, e, pior ainda, no ano seguinte nem sequer pode dizer que não a quer, porque as contratações são definidas centralmente.
Neste caso a solução foi a pragmática à portuguesa, designando uma prof. “observadora” que seguia a dita prof de aula em aula para “observar” – ou seja, para dar as aulas em vez da outra. Os alunos tiveram as suas aulas (de português!), a senhora lá conseguiu por o sono em dia sendo paga para isso.
Isto não é um jogo de resultado zero; a tal prof “observadora” tem que vir de algum lado, neste caso as escolas têm um banco de horas limitado que podem usar como querem, em geral põem os profs a ajudar alunos com dificuldades, ou a dar aulas extra das matérias prioritárias (assim consideradas pela escola, que nessas coisas têm autonomia). Em vez de fazer isso, passou o ano a “observar”.
Já agora, não sei se sabem, mas a autonomia das escolas vai mais longe. Cada direcção determina os seus próprios critérios de transição: há escolas em que se transita com 6 negativas, outras em que é à moda antiga, com duas desde que não sejam português e matemática. A taxa média de retenção a nível nacional no 2º e 3º ciclos e secundário é inferior a 10% (anda pelos 5%), mas essa estatística é feita à custa dos meninos que passam com 4, 5 e 6 negativas.
A escola dos meus filhos é à moda antiga, 3 negas e chumba, apanha uma das zonas mais pobres e com pais menos letrados de toda a Lisboa antiga (ou seja excluindo os arredores), e a taxa de retenção anda pelo 1/3 – e, meus senhores, esse seria o número real a nível nacional se os critérios fossem os que nós tivemos quando andámos na escola.
Nuno, casos desses abundam. O meu filho tem uma professora que ensina matemática obrigando os alunos a decorar o seu método de resolver os problemas. Quando digo ao meu filho que a matemática não tem método único mas apenas lógica e coerência e que qualquer processo é válido desde que cada passo seja logicamente correcto, ele responde-me: “sim, mas a professora não aceita isso. Tem de ser como ela ensina”. Resultado, o miudo que era um excelente aluno, agora é um aluno mediano. Pior, está a deixar de gostar de matemática. Já disse à senhora que o melhor que ela tinha a fazer era dedicar-se à culinária. Aí podia aplicar as suas receitas à vontade.